quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

o corpo e' que paga

Com tantas discussoes sobre metodologias, padroes de comportamento, linhas esteticas, tecnicas, graus de aprofundamento, diferentes abordagens da criacao coreografica e dos metodos e caminhos artisticos, tenho pensado bastante que lugar deixamos ao corpo. Ao nosso.
Trabalhando com ele oito horas por dia, apenas o usamos como utensilio de trabalho? E, considerando que o abordamos como utensilio, respeitamo-lo? Ao cumprir a nossa necessidade e urgencia de o exponenciar e de o utilizar como ferramenta de comunicacao, tudo me leva a crer que sim. Ao obedecermos a uma vontade ou desejo, 'a partida, preenchemo-lo e alimentamo-lo. Mas com todas as "lesoes e tensoes" que vao surgindo e acumulando, como se pode medir entao "esse" respeito?
Como abordar a fronteira tenue entre respeito e abuso?
Seremos nos, movers, prostitutos de expectativas? Nossas e dos outros? Ou seremos nos, pessoas, escravos das proprias expectativas?
Todo o caminho que temos feito ao longo desta  ultima semana e meia e' precisamente para contrariar isso e afirmar uma nova posicao. No sistema social e nas nossas vidas pessoais e artisticas (que muitas vezes nao se distinguem).

(desculpem a falta de acentos e cedilhas, o computador e' finlandes...)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

primeiro dos passeios


Hoje dei o meu primeiro passeio sozinha pela cidade. Em sete dias a segunda oportunidade de conhecer a cidade e a primeira de estar sozinha. Mais uma vez surge a questão: to be alone / to be lonely. Certamente escolhi e senti-me na primeira opção.
Em Lisboa poucas vezes estou sozinha e quando me acontece nunca sei como lidar com o meu tempo. Ao ocupar-me com um bilião de coisas apenas o desperdiço...

Hoje pude olhar para o meu lugar a passear pelo lago, pela "nova cidade", por St. Pauli, pelas inúmeras pontes (Hamburgo é a cidade com mais pontes do mundo!), pelo domingo cheio de gente na rua e cinzento como uma fábrica e, finalmente, perceber a maravilha de viajar sozinha.



Novamente visitou-me a questão das escolhas. O que é que me conduz numa cidade desconhecida? E analisei o que me chama a atenção. Neste domingo, definitivamente a água e a arquitectura.
Hamburgo, como porto que é, está cheio de rio, canais, barcos e uma arquitectura que mistura o industrial com um estilo clássico, renascentista que sobrevoa a cidade e que nos oferece alguma elegância e solidez salgadas.
Entretida com a minha música e o meu fado, procurava nas ruas e recantos perspectivas, linhas e cores (poucas, pois o dia estava a preto e branco) que pudessem caber na moldura da máquina fotográfica de forma a transportar a cidade alemã comigo para os outros e para sempre.

E aqui deixo, então, algumas imagens que resumem o dia de hoje.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Teletransporte para Hamburgo...



Primeira paragem, Primeira Residência _ Hamburgo.


Já a procissão vai no 6º dia e só agora me debruço sobre a escrita. A força e a criatividade de um grupo de 12 pessoas e "orientadores" ainda não me deixaram parar e, apesar de todos os dias sermos obrigados entre as 10.00 e as 11.00 a pensar e descascar tudo o que foi feito no dia anterior, ainda não consegui ter uma visão "extra-externa" do que vamos produzindo e reflectindo. Julgo que isso só irá acontecer daqui a semanas ou até meses....


Sempre que deixo Lisboa, invade-me uma melancolia quase inexplicável. Dizer adeus às pessoas e às ruas tem-se demonstrado sempre tão difícil que me faz sentir com uma idade que não é a minha e que representa uma etapa que quero ver distante por agora.

Porém orgulha-me de arrepio a minha Lisboa e este ser alfacinha, varina e fadista.

Ao digerir toda esta melancolia, atravessei os ares em direcção a Frankfurt, por 45 min. e seguidamente Hamburgo.
Ao atravessar um parque às escuras, mas onde a pouca luz se reflectia na água que oscilava de temperatura entre gelo escorregadio e neve amortecedora, perdi-me. Não conseguia dar com o caminho em direcção à casa dos 8. Toquei à campainha de um alemão que não falava inglês. Mas como os humanos têm esta capacidade de se entenderem facilmente quando realmente precisam, lá fui eu, arrastando a minha bagagem pela passadeira branca. Desta vez para me entender com os outros 7 com quem iria viver duas semanas.


Gosto mesmo das primeiras impressões que tiramos das pessoas que não conhecemos e de, com o andar do tempo, as relembrar e comparar com o que vou vendo e recebendo dos que se vão tornando amigos.
Depois de uma bela conversa introdutória ao jantar, vi cada um regressar ao seu mundo que parecia caber num labtop... E como me arrependi (com as minhas saudades!) de não ter trazido o meu...
Com todo o frenesim interior que os outros me espelhavam, assaltou-me uma preocupação: o projecto. Toda a base de motivação e volante individual desta grande viagem que nos engloba aos 12 e às 4 cidades européias.

De Lisboa e dos três meses anteriores apenas trazia a mesma idéia vaga: same time, different spaces. E todas as "pequenas" idéias circundantes: globalização; física quântica; to be alone / to be lonely; universalidade; Jacques Tati's Playtime; Certeza; time goes by; one day, one minute, one second, one now already gone, one now que pode ser congelado no tempo...
E comigo apenas trazia UM livro: "A Definição de Arte" do Umberto Eco! Como me orientaria no meio de tanta informação que procurava mas que permanecia não documentada, não explorada, não concretizada?!?
Pus-me a ler o livro tentando espremer cada frase de modo a conduzir "alguma" informação na direcção que me conviria: os "meus" temas.
E qual não é a ironia?! Pois o livro trata exactamente dos processos e metodologias artísticas. Ao focar-se no método, é científico. Ao ser científico, não é (à partida) ficcional ou real quotidiano. Não se demonstrava objecto para o meu desejado "processo artístico"...

Como num filme, não vemos a noite passar e salto para o K3 no Kapnagel onde ficam os estúdios. Começamos a semana com vídeo-dança. Esperava-me uma semana indizível...

Hoje, passados seis dias, tento transcrever todas as conversas e experiências laboratoriais com o corpo e a câmara.

(Info num próximo post)