Já a procissão vai no 6º dia e só agora me debruço sobre a escrita. A força e a criatividade de um grupo de 12 pessoas e "orientadores" ainda não me deixaram parar e, apesar de todos os dias sermos obrigados entre as 10.00 e as 11.00 a pensar e descascar tudo o que foi feito no dia anterior, ainda não consegui ter uma visão "extra-externa" do que vamos produzindo e reflectindo. Julgo que isso só irá acontecer daqui a semanas ou até meses....
Sempre que deixo Lisboa, invade-me uma melancolia quase inexplicável. Dizer adeus às pessoas e às ruas tem-se demonstrado sempre tão difícil que me faz sentir com uma idade que não é a minha e que representa uma etapa que quero ver distante por agora.
Porém orgulha-me de arrepio a minha Lisboa e este ser alfacinha, varina e fadista.
Ao digerir toda esta melancolia, atravessei os ares em direcção a Frankfurt, por 45 min. e seguidamente Hamburgo.
Ao atravessar um parque às escuras, mas onde a pouca luz se reflectia na água que oscilava de temperatura entre gelo escorregadio e neve amortecedora, perdi-me. Não conseguia dar com o caminho em direcção à casa dos 8. Toquei à campainha de um alemão que não falava inglês. Mas como os humanos têm esta capacidade de se entenderem facilmente quando realmente precisam, lá fui eu, arrastando a minha bagagem pela passadeira branca. Desta vez para me entender com os outros 7 com quem iria viver duas semanas.
Gosto mesmo das primeiras impressões que tiramos das pessoas que não conhecemos e de, com o andar do tempo, as relembrar e comparar com o que vou vendo e recebendo dos que se vão tornando amigos.
Depois de uma bela conversa introdutória ao jantar, vi cada um regressar ao seu mundo que parecia caber num labtop... E como me arrependi (com as minhas saudades!) de não ter trazido o meu...
Com todo o frenesim interior que os outros me espelhavam, assaltou-me uma preocupação: o projecto. Toda a base de motivação e volante individual desta grande viagem que nos engloba aos 12 e às 4 cidades européias.
De Lisboa e dos três meses anteriores apenas trazia a mesma idéia vaga: same time, different spaces. E todas as "pequenas" idéias circundantes: globalização; física quântica; to be alone / to be lonely; universalidade; Jacques Tati's Playtime; Certeza; time goes by; one day, one minute, one second, one now already gone, one now que pode ser congelado no tempo...
E comigo apenas trazia UM livro: "A Definição de Arte" do Umberto Eco! Como me orientaria no meio de tanta informação que procurava mas que permanecia não documentada, não explorada, não concretizada?!?
Pus-me a ler o livro tentando espremer cada frase de modo a conduzir "alguma" informação na direcção que me conviria: os "meus" temas.
E qual não é a ironia?! Pois o livro trata exactamente dos processos e metodologias artísticas. Ao focar-se no método, é científico. Ao ser científico, não é (à partida) ficcional ou real quotidiano. Não se demonstrava objecto para o meu desejado "processo artístico"...
Como num filme, não vemos a noite passar e salto para o K3 no Kapnagel onde ficam os estúdios. Começamos a semana com vídeo-dança. Esperava-me uma semana indizível...
Hoje, passados seis dias, tento transcrever todas as conversas e experiências laboratoriais com o corpo e a câmara.
(Info num próximo post)

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